A decisão de vermos ou não TV, de termos ou não TV em casa, seleccionarmos a programação que vemos e deixamos os nossos filhos verem é extremamente pessoal. Primeiro está relacionada com uma questão de "cultura familiar", se o teu serão, por exemplo, tem como ritual ver TV todos os dias não fará sentido, a teu ver, que assim deixe de ser, mas quando a TV já não é nada em tua casa começas a questionar-te sobre o que realmente de bom ela traz face ao menos bom ou mau. Como já referi foi muito fácil deixar de ter TV.
No entanto, a decisão levou-me a reflectir, será mesmo a TV imprescindível no crescimento de uma criança?

Li muito, ouvi muitas opiniões e acabei por participar num forum onde conheci famílias que vivem sem TV (achei essencial conhecer as opiniões e razões de quem realmente vive sem), a minha decisão estava tomada, mas agora está plenamente clara para mim, não restam duvidas, isto é o que faz sentido neste momento para a minha família. Uma criança tão pequena como o Leo não precisa de TV. E este equilíbrio entre as razões que me levaram a tomar esta decisão (e que já referi nos posts anteriores -
1ºepisódio;
2º episódio) as opiniões de quem vive efectivamente sem TV me deixaram mais descansada.
Vamos efectivamente viver sem TV, vamos esporadicamente ver filmes e desenhos animados mas não na programação normal da TV. E o dia que o Leo me pedir que quer ver ou que eu tenha consciência que de alguma forma algo está a falhar nas minhas convicções tomarei outra decisão.
Aqui deixo pequenos excertos e links do que li e me ajudou a tomar a minha decisão.
Testemunhos de quem cresce ou cresceu sem TV: (recolhi estas histórias num forum alemão em que participei e achei interessante partilhar)
"Eu nunca tive TV. Em casa dos meus país não existia TV, mas eu nunca tive a sensação de que me faltava alguma coisa, muito pelo contrário eu sou feliz assim. A televisão devora o tempo, que se poderia usar de forma mais consciente.
Na escola os meus colegas falam por vezes sobre programas que eu não conheço, mas nunca me senti colocado de parte, o importante é estar bem integrado na escola e por sua vez no grupo, e desta forma não é nada trágico se em determinado momento eu não posso opinar.
Naturalmente que existem programas interessantes na TV, mas não são a maioria. A televisão poderá sim ensinar mas também nos pode tornar mais idiotas. E neste caso só os pais nos podem orientar.
E hoje com 18 anos vejo TV muito esporadicamente, acho chato e perda de tempo e agradeço aos meus pais por me terem educado desta forma. Crianças precisam se movimentar, passear. precisam dos pais e de amigos com quem conversar e brincar e isso nunca me faltou." (Lucas, 18 anos);
"Eu também acho que crianças até terem idade para entenderem a diferença entre o que passa na TV e a realidade não precisam de ver. O tempo que passam frente à TV podem passá-lo de forma mais rica para o seu desenvolvimento, brincando, ouvindo histórias, lendo.... fazendo coisa que são certamente mais saudáveis. Eu vivi sem televisão até aos 9-10 anos e achei a minha infância maravilhosa. Ainda não tenho filhos mas tenciono agir da mesma forma que os meus pais fizeram.
O facto de, quando criança não conhecer, por vezes, como as outras crianças certos desenhos animados ou outros assuntos televisivos não achei nada relevante, eu acho mesmo que crianças com menos de 5-6 anos não falam sobre isso.
Cheguei a ver TV em casa de amigos com curiosidade, mas depressa me aborrecia, preferia ir brincar. (Jule, 24 anos)
"Nós viamos TV cá em casa sempre de forma controlada. Os meus 2 filhos na altura com 3 e 5 anos podiam ver durante 30 minutos a 1 hora de TV por dia, sempre os acompanhava, mas nem sempre explorava com eles o que estavam a ver. Até ao dia em que me apercebi ao observar os meus filhos que eles estavam muito calmos frente à TV, mas não no sentido positivo, eles estavam apáticos. Desligados. A partir desse dia passamos a ver TV 1 a 2 vezes por semana e hoje passados 5 anos não temos TV e digo com orgulho, não faz falta. Vamos por vezes ao cinema vemos um DVD mas ficámo-nos por isso. Exploramos 2 a 3 sites de noticias um dos quais orientado para crianças e com documentários bastante didácticos para nos mantermos informados. (Gudrun, mãe, 35 anos)
Fico por vezes aborrecido quando não posso participar em conversas com os meus colegas sobre os programas do momento, mas não é certamente o fim do mundo. Houve um dia destes que fiquei bastante irritado, todos falavam do DSDS* e eu não sabia o que era, cheguei a casa e discuti com os meus pais por não termos TV. O meu pai levou-me ao computador, vimos vídeos sobre o programa, em silêncio, cheguei a rir-me mas no fim o meu pai perguntou-me "Gostas? Queres ver todos os programas? Achas interessante?" e eu pensei um pouco e senti-me estúpido, aquilo é horroroso... enfim só serve mesmo para falar com aqueles colegas com quem não se consegue falar sobre mais nada de tão tótos que são. Filmes vejo em DVD ou no cinema e o futebol vejo como acho que deve ser: numa esplanada com um grupo de amigos. A TV idiotiza-ma não preciso dela" (Markus, 15 anos)
(* programa que procura cantores em castings pela a Alemanha e que dá ênfase aos pobres coitados que não sabem cantar... enfim )
Links com informação relevante:
Crescer sem televisão: "A primeira razão é de ordem pedagógica ... a televisão submerge as crianças num silêncio passivo, numa etapa crucial para a aquisição da linguagem. Os autores do guia "Fête de bébés" afirmam que, antes dos 3 ou 4 anos, a criança não pode compreender o encadeamento das sequências e a lógica de um argumento: daí que lhes atraiam as sequências curtas, como uma publicidade ou os desenhos animados. Advertem também que "quanto mais se deixa a criança ante o pequeno ecrã, mais difícil é afastá-lo dele e retornar à realidade".
"A segunda razão ideológica: o recusar dos modelos transmitidos pela televisão e pela publicidade...."
"O terceiro motivo: o tempo perdido."
"Todas as famílias que vivem sem televisão dizem que as relações entre pais e filhos são agora de melhor qualidade. "Em casa há verdadeiras refeições em família com autêntico diálogo. As filhas contam-nos o que fizeram na escola, os pequenos acontecimentos do recreio. O filme que começa às 20:45 é incompatível com a vida familiar", explicam Roger e Brigitte. Anne aprecia que Myriam venha frequentemente à cozinha contar-lhe a passagem da novela que está ler. Shopie acha que sem televisão as crianças são mais criativas. "É mais interessante jogar com o Mecano ou os Legos do que ficar colado aos desenhos animados".
"As crianças que crescem sem televisão têm um perfil psicológico diferente das outras? Dominique Pasquier, professor de psicologia dos meios de comunicação dos Instituto de Estudos Políticos de Paris, explica: "têm sem dúvida uma percepção diferente do mundo, menos ligadas às imagens utilizadas pela televisão, menos estereotipada. Esta percepção responde mais ao que vêem directamente no mundo exterior, no ambiente imediato. As crianças sem TV, que conheçem menos as estrelas e os famosos do showbusiness são menos sensíveis aos mitos contenporâneos: beleza, êxito, dinheiro. São mais realistas, mais independentes, menos superficiais"
"Pesquisas mostraram que a TV pode diminuir os níveis de atenção das crianças e apoiam a recomendação da Academia Americana de Pediatria, segundo a qual crianças com menos de dois anos não devem assistir a programas de televisão....O resultado da pesquisa sugere que o hábito de ver TV superestimula e modifica o desenvolvimento normal do cérebro de uma criança. Entre os riscos encontrados estão dificuldade de concentração, impulsividade, impaciência e confusão mental. (Será que o aumento de crianças diagnosticadas como hiperactivas, a agressividade na sala de aula não estarão relacionadas com o facto das as crianças verem cada vez mais TV?)
Os pesquisadores não se preocuparam em saber que programas as crianças assistiam, pois, segundo Christakis, o conteúdo não é o culpado pelos danos causados ao cérebro. O problema é a rápida superposição de elementos visuais, típica dos programas de TV. "O cérebro de uma criança se desenvolve muito rapidamente durante os primeiros três anos de vida. Ele está realmente sendo ‘conectado’ neste tempo", diz o pesquisador. O estímulo excessivo durante este período em particular pode criar mecanismos danosos à mente da criança. Comentários Conceição Trucom: pensar que durante este período a criança está passiva e não realiza atividades físicas e motoras, importantíssimas para seu desenvolvimento ósseo e muscular: estrutural. Para complicar, os programas infantis estimulam o consumo de "porcarias", também conhecidos como alimentos vazios, que podem desencadear problemas de subnutrição e obesidade, portanto vitalidade e disposição para tarefas e desafios." (fonte)
Li muito, e o debate no forum foi super enriquecedor, deixei aqui só um pouco do que achei relevante.
Posso um dia mudar de ideias, posso "cuspir-me em cima" mas é isto que eu quero agora. Considero a minha decisão consciente. Um dia mais tarde não sei... mas estarei aqui (espero eu) para contar. :)
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