quinta-feira, 31 de março de 2011

Hiperactividade ou incapacidade de estar quieto? - uma questão de concentração

Falei aqui faz algum tempo sobre a importância de uma criança desenvolver a sua capacidade de concentração e como este desenvolvimento deve ser auxiliado por nós pais e educadores: "O meu filho não pára quieto - uma questão de concentração".
Uma coisa que me deixou bastante perplexa quando entrei no mundo do ensino foi o elevado número de crianças consideradas hiperactivas, o elevado número de crianças que não se sabia comportar em sala de aula além da falta de educação dos pequenos (sobre este último conversaremos outro dia). Considerei que se tratava de um problema pontual que seria somente nesta escola, mas não fiquei por aqui e investiguei sobre o assunto e realmente cheguei à conclusão que esta é uma realidade (pelo menos em Portugal). Cada vez mais crianças são levadas ao médico e lhes é diagnosticada a famosa hiperactividade e mais grave que isso é que são medicadas com calmantes para ficarem mais calmos. Será para darem descanso aos pais e professores?
Sobre hiperactividade existe imensa informação diz-se que é das doenças infantis mais faladas da actualidade e eu questiono-me. Porque será que quando andei na escola nenhum dos meus colegas era hiperactivo? E agora visito uma escola e encontrarei certamente crianças com esse diagnóstico? Será que é uma doença ou um sinal de evolução e no futuro seremos todos hiperactivos? Será que não estão a confundir a hiperactividade com falta de concentração, com falta de orientação, com falta de foco, com excesso de estímulos das crianças? (se eu estiver muito errada por favor corrijam-me) Será que é falta de paciência dos país, professores e profissionais de saúde para lidar com a energia de uma criança?
Acredito que a doença exista, acredito que não deve ser fácil para país que realmente têm filhos hiperactivos lidar com a situação, lidar com problemas de desatenção, agitação motora, impulsividade dos filhos. Mas vamos ser realistas e críticos no diagnóstico da doença, por favor... não vamos encher os nossos filhos de calmantes, criança é criança, criança tem energia, ela precisa é desde cedo ser bem canalizada.
Estarão certamente de acordo comigo quando digo que os tempos que correm são bem diferentes daqueles em que nós pais crescemos. Existem tantos estímulos, tantas novidades, tanta informação a ser processada que, acredito eu, a criança precisa mais apoio e orientação dos pais. E o que é que acontece na realidade? Vivemos num mundo que cada vez menos tempo dá às crianças, que cada vez menos humanamente as orienta e as ajuda a canalizar as suas energias.
Vivemos num mundo que preenche o tempo das nossas crianças com estímulos "não humanos" para os adultos poderem ter descanso. (a meu ver se querem "descanso" não tenham filhos)
O mundo parece-me estar de pernas para o ar.... sei que falo de barriga cheia, pois sou uma mãe que tem o privilégio de viver em pleno a infância do meu filho e que posso fazê-lo, mas também conheço muitos país que trabalham muito e que sabem dar atenção aos seus filhos, que sabem, que se preocupam em orientar o pequeno que hoje tem uma tarefa bem mais complicada daquela que tínhamos nós enquanto crianças.
Os nossos filhos precisam de mais ajuda, precisam do nosso apoio para enfrentar este mundo cheio de tudo e nós precisamos muita paciência e dedicação. 
Não vamos meter tudo no mesmo saco: hiperactividade, incapacidade de estar quieto ou falta de concentração. É importante dar o valido respeito à doença e se realmente a criança sofre dela devemos recorrer a profissionais especializados para ter a certeza antes que se confunda a hiperactividade com "energia não canalizada". (mais sobre o assunto)
E o que é que está em jogo neste aumento do número de crianças hiperactivas ou ditas muito agitadas?
A meu ver é muitas vezes falso diagnóstico e pura e simplesmente um problema de concentração. Todos devemos treinar a nossa concentração que só com ela conseguimos fazer actividades bem feitas com motivação e com frutos. As nossas crianças precisam deste treinamento em especial e não só porque estão numa fase de desenvolvimento e imensa aprendizagem mas também porque estão sujeitas a muitos estímulos com os quais têm que saber viver mas também exteriorizar.
"Estar concentrado é poder estar sozinho consigo próprio" e as nossas crianças não estão a ser capazes de o fazerem sozinhas temos que as orientar. 
Quem se tornará num adulto equilibrado se não tiver a capacidade de se auto-interrogar de tirar um tempo para si mesmo, para as suas filosofias?


10 comentários:

ana isabel disse... [Responder Comentário]

OI Sofia

Eu fui diagnostica com DCM (Disfuncao Cerebral MInima), que era como se chamava a hiperatividade a 25 anos.
Só que na epoca não existiam os remedios que existem hoje... Então não fui medicada. E, sinceramente, não tive grandes problemas na escola. Só achava chato ficar sentada muito tempo, mas não era indisciplinada.
Já li certa vez que este é na verdade um problema das pessoas que cuidam das crianças e não da criança em si. Nunca me senti diferente, mas até hoje acho que algumas pessoas são mais vagarosas que eu...
O que voce falou sobre estimulos é interessante, sem duvida hoje as crianças tem mais estimulos (não somente da televisão) e não tem espaço para correr, brincar, enfim trabalhar com estes estimulos.
Acho que podemos e devemos continuar conversando sobre isso

Um abraço

Ana Isabel

Naiara Krauspenhar disse... [Responder Comentário]

Quando GG era menor e não dormia (é, não dormia mesmoooo), um médico diagnosticou ela como hiperativa.
Queriam lhe dar remédios e eu não aceitei.
Foi uma fase, longa, mas uma fase.
Demandou muita paciência mas passou.
Acho que há de se ter muito cuidado com o que os médicos falam. Uma segunda opinião sempre é importante.

Mas o fato é que muitos pais procuram os médicos justamente na esperança de conseguir um remédio e um pouco de paz...

BJos

Tuka Siqueira disse... [Responder Comentário]

Também me pergunto muito sobre isso. Uma das coisas que li a respeito de crianças hiperativas é que não conseguem ficar quietas por 2 minutos, e só por isso descarto a doença numa das minhas gêmeas. Aline é muito ativa, estressada e desatenta, mas vez por outra consegue ficar por vários minutos atenta à uma mesma brincadeira se essa estiver lhe dando prazer. Mas muitas mães acham que qualquer desatenção é motivo para calmantes! Nessas horas me lembro bem da pediatra das gêmeas quando, dois dias apos elas terem alta da UTI Neonatal, eu fui lá me queixar que estavam tendo cólicas. Ela me atendeu com muito carinho e educação, me explicou um monte de coisas, me deu uma porção de dicas e no final me receitou algumas gotas de paracetamol... pra mim! Entendi na hora que era o meu nervosismo de lidar sozinha com elas que estava gerando o estress nas crianças e fiz o que ela receitou, passei a tomar umas gotas do paracetamol antes de amamentá-las (mesmo que fosse dar mamadeira) e a cólica sumiu como que por encanto. Mantendo-me mais calma, acalmei também as crianças. Funciona assim até hoje. Quando elas estão muito agitadas e briguentas, procuro ver se não sou eu a agitá-las.

Beijos

Beatriz Zogaib disse... [Responder Comentário]

Sofia, ótimo post. Meu penúltimo foi sobre o mesmo assunto, mas abordado pelo lado da falta de educação mesmo. Como pais e mães justificam a falta de limite dando o nome de hiperatividade, sem nem ir ao médico. Dá uma lida... O seu enfoque é interessante, pois é a raiz do problema que eu falei. De fato, o que criança tem é energia, e exatamente pela falta de paciência e dedicação de pais, vemos ela ser canalisada da pior forma, com falta de educação...
beijos
Bia (www.vidadamami.blogspot.com)

Mari Hart disse... [Responder Comentário]

Oi Sofia! Asisno embaixo de cada linha! Fiz um post sobre "As doenças da moda" e a hiperatividade está icluída entre as principais! O pior ainda é medicar crianças agitadas o que para mim no fim das contas, quer dizer saúde de sobra! A banalização da ritalina tá demais!

Minha filha foi diagnosticada com hiperatividade aos 3 anos de idade, cedo demais! Hj aos 11 anos, ela tem sim seus problemas de concentração, mas que forma resolvidos com esporte, atenção e acompanahmento psicológico, nunca com remédios!

O que aocntece é que é mais fácil p/pais e educadores rotular a criança e se isentar da responsabilidade(e trabalho!) de educar.

Bjo grande e é claaaaro que pode usar meu texto, fique a vontade! Conscientização nunca é demais! =)

Priscila disse... [Responder Comentário]

Ótimo post. Sou professora de adolescentes entre 12 e 15 anos. É impressionante o número de jovens medicados! E o pior é a atitude dos pais: mostrando o laudo médico e o comprovante de que o menino toma remédio, o filho tem de ser avaliado de outra maneira e não pode ser reprovado! Ou seja, muitas vezes os próprios pais forçam esse diagnóstico! Já atendi uma mãe que trouxe o laudo de TDA do filho com o maior orgulho!
Uma pena. Mas é o que vem acontecendo...
Abraço!

ESpeCiaLmente GaSPaS disse... [Responder Comentário]

Texto interessante... Nunca tinha lido nada visto desse prisma ;)

Mãe Feliz disse... [Responder Comentário]

Olá Sofia. No meu trabalho lido com crianças e com os seus pais e ouço muitas vezes os pais queixarem-se dos seus filhos e dizerem "ele deve ser hiperactivo...". Sinceramente penso um pouco como tu, é mais fácil dizer que o nosso filho é hiperactivo do que admitir que estamos a falhar ou que falhamos como pais.

Com o ritmo diário muitos pais não se apercebem dos erros que cometem na educação dos filhos e outros até nem querem saber, e depois quando são confrontados com situações embaraçosas dizem que eles devem ser hiperactivos... Estas crianças precisam de verdadeiros pais e não de pais que apenas lhes garantem as necessidades fisiológicas e materiais.

Bom fim de semana

Roteiro Baby disse... [Responder Comentário]

Tenho visto muita gente "rotular" crianças como hiperativas hoje em dia... e acho que, realmente, não é uma questão de que isso aumentou... acho que os diagnósticos é que andam meio precipitados.

www.roteirobaby.com.br

Cynthia Wood Passianotto disse... [Responder Comentário]

Oi Sofia!
Em primeiro lugar gostaria de cumprimentar e dizer que gostei muito de seu blog.Em segundo que gostei de seu ponto de vista sobre Hiperatividade.Como sou psicologa vejo que muitas vezes esbarro na rua em maes que diuzem que seus filhos arteiros,levados e desobedientes sao hiperativos,mais na verdade sao criancas que nao tem limites e que os pais nao sabem dizer nao nunca.
No consultorio quando e feito o diagnostico de hiperatividede,o que e feito com muita atencao.
Tem criancas que realmente nao consegue se concetrar, que realmente nao consegue ficar parada sentadas,que falam muito,e sempre.
Mais nem por isso estas criancas sao mal educadas.Tem sim limites e respeitam as pessoas.Mutos tem boas notas na escola,e muitas vezes se sobresaem aos amigos quando estao em psicoterapia e trabalham com rotina e agenda.Os hiperativos nao podem ser confudidos com outras criancas que sao levadas.Nestas o que falta e disciplina e atencao dos pais.

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