segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Protecção na medida certa

Quando vim viver para a Alemanha uma das coisas que me chamou mais a atenção foi a forma como os pais alemães lidam com as suas crianças, eles são menos protectores que nós portugueses. No inicio parecia-me que eles eram mais frios e menos carinhosos com os filhos, mas estava enganada. Observei várias vezes crianças nos parques a brincar com pais a vigiar, também trabalhei como babysitter com duas crianças alemãs e deparei-me com a realidade: os pais são super carinhosos, tal como qualquer bom pai, estão atentos aos seus filhos, mas não os limitam e protegem tanto como nós geralmente fazemos. Aqui todas as crianças brincam livremente na areia do parque, saltam, correm e experimentam todas as diversões, parecem uns macaquinhos :) em Portugal isso também acontece, mas os pais ficam junto das crianças, limpam logo assim que elas colocam as mãos na areia (isto com crianças de 10-12 meses) protegem quando a criança tenta trepar um escorrega, andam sempre com as mãos no ar. Por vezes parece que se sentiriam melhor se os seus filhos vivessem no interior de um airbag.
Ok, claro que não são todos os pais assim, mas esta diferença de cultura fez-me mais uma fez viajar nas minhas reflexões...
Uma criança demasiado protegida torna-se fraca e habitua-se a isso vivendo no papel de vitima. O melhor é acompanhar o nosso rebento sensível e ao mesmo tempo confiar nele. O que o fará mais forte para enfrentar a vida.
Geralmente pais que protegem demasiado os seus filhos também são demasiado benevolentes em casa. A violação de regras não têm consequências. Os pais justificam-se com o facto de a criança já seguir um estatuto com regras na escola e por isso em casa os pais se concentram em outras coisas que vão além do estabelecimento de limites e criam os chamados - filhos mimados. (não me refiro aqui a troca de carinho e atenção, mas sim à protecção exagerada).
Existem desde muito cedo na vida de uma criança razões para esta ser considerada aos olhos dos pais uma "coitadinha" pois, geralmente, um bebé nos seus primeiros meses de vida manifesta-se chorando, sente frequentemente desconforto, dor, depende muito dos pais. Quando no infantário fica com alguma frequência doente, fica triste porque ambos os pais têm que trabalhar...

Pais que se preocupam com as necessidades e capacidades dos seus filhos, são bons pais. Especialmente quando têm em conta a perspectiva do seu filho. Bons pais têm noção que o seu filho de um ano não se sentirá bem num shopping lotado ou num lugar com demasiadas atracções, que ficará nervoso e inquieto e portanto evitam esses locais. Também são bons pais aqueles que estão atentos aos sucessos e insucessos dos seus filhos, mobbing ou frustações na escola. Que tentam conhecer as causas de um desempenho menos bom, de desmotivação. O melhor é ter o filho ao seu lado e com ele trabalhar a seriedade e a confiança encontrando soluções em conjunto.
O problema está quando se ocupa a posição do filho - o filho está em desvantagem, então tem que se proteger. Não lhe exige nada, mas faz por ele, roubando-lhe a hipótese de ele próprio experimentar e resolver o obstáculo que se lhe depara.
Uma criança que conhece assim o mundo, que vive tudo no papel de vitima sensível e incapaz tomará esta forma de viver ao longo de anos na sua vida. E existem grandes hipóteses de ela ser vista pelos outros como a fraca,  indefesa e vulnerável. Terá a sua auto-estima danificada e terá dificuldade de alcançar sozinha as metas a que se propôs.
Uma pessoa caminha ao longo da vida de forma optimista ou pessimista, com auto-estima ou não, mas seja qual for a sua postura, esta estará certamente intimamente ligada com a forma como lidou com a vida nos seus primeiros passos ao lado dos seus pais.

Fortalece o teu filho, incentivando-o a fazer coisas sozinho, a experimentar coisas novas. Confia no teu filho e verás como a sua auto-estima crescerá mesmo com as pequenas conquistas que ele fizer. E como ele irá aprender com os erros a fazer o correcto.
E se o teu filho se sentir fraco e desmotivado, se pensa que não consegue, se tiver dificuldades em determinado momento, lembra-te o quão importante é encorajá-lo.
As situações da vida podem se ultrapassar de várias formas, devagar e com cuidado, aproveitando e saboreando cada momento, comentando, analisando, sabendo aceitar e vendo as coisas de mente-aberta. Por vezes é mesmo necessária uma pitada de coragem. Mas para isso é necessário VIVER a vida.
Também é claro para mim, que nem todas as fraquezas e limitações dos nossos filhos se podem transformar com força e determinação, mas certamente cada criança encontrará em si mesma qualquer coisa em que tenha talento. E serão certamente estes talentos, estas conquistas obtidas pela exploração, a coragem, a dedicação muito importantes para o resto da sua vida, mesmo que aos nossos olhos pareçam insignificantes.
Fortalecendo o nosso filho, dando-lhe asas e confiança estaremos certamente a fazer mais do que a protege-lo constantemente de uma queda ou uma zanga com os colegas. E criança é-se uma única vez na vida, vez essa que nos é dada para nos prepararmos para o mundo que aí vem... viver um infância de medo, receio, falta de coragem e auto-estima preparará uma criança para quê??
O mundo não é um mar de rosas e por muito que por vezes nos apeteça manter o nosso tesouro dentro do airbag essa não é um boa alternativa para o preparar para o seu futuro. Pois inevitavelmente um dia cruzar-se-á com espinhos e o airbag rebentará de forma violenta.  E se começarmos bem cedo com as pequenas coisas do dia-a-dia, nas suas brincadeiras, na escola, entre amigos a desenvolver a capacidade de saber enfrentar os desafios  estaremos certamente a facilitar-lhe a vida futura...
E como é difícil deixar um mundo melhor para os nossos filhos, deixemos ou menos filhos melhores para o mundo. Pessoas mais capazes em ir à luta, pessoas que sabem diferenciar o que é ou não perigoso, pessoas que se sabem proteger mas ao mesmo tempo são capazes de enfrentar as dificuldades de cabeça erguida e uma dose de coragem.

12 comentários:

Naiara Krauspenhar disse... [Responder Comentário]

Eu me acho super desencanada e acredite, já fui vista com maus olhos por causa disso...
As pessoas me perguntam como tenho coragem de deixar minha filha brincar na terra ou tomar banho de chuva...
Fico pasma.
Até fiz um post no blog esses dias falando a respeito disso, contando a história do Harry Hubble - The boy in a plastic bubble.
Bjokas

Alma disse... [Responder Comentário]

Querida Sofia,
Ainda bem que vocês estão bem,fico mais tranquila.
Bjs
Alma

ESpeCiaLmente GaSPaS disse... [Responder Comentário]

Como é difícil ser pai e mãe e saber qual a melhor forma de o preparar. Nós próprios já podemos ter uma educação que nos pode levar a tomar decisões menos correctas...

Sofia disse... [Responder Comentário]

@ESpeCiaLmente GaSPaS Sim tens razão, como é difícil... e claro ninguém é perfeito... e o que é certo para mim pode não o ser para outra pessoa. Na minha opinião o mais importante para educarmos o melhor que conseguirmos é sermos críticos com as nossas decisões, questionarmo-nos sempre, ser sinceros, justos com nós mesmos e temos o caminho facilitado para cumprirmos está tarefa tão difícil da forma mais adequada que encontrarmos.

Anne disse... [Responder Comentário]

Obrigada Spfia por sempre despertar na gente questões tão bacanas para refletir!!
Bjos

Silvia Azevedo disse... [Responder Comentário]

Belo e importante texto, Sofia! Geralmente é muito difícil para nós, pais e mães, enxergar claramente a tênua linha entre o carinho e o mimo exagerado; entre o cuidado e a proteção exagerada.

Gostei do blog!

Beijoca!

Silvia Azevedo

http://umapitadadecadacoisa.blogspot.com

Cora disse... [Responder Comentário]

Sofia, concordo com cada palavra, mas na prática...eu não consigo!
Não sou mãe, mas percebo isso com os cuidados que tenho com meus sobrinhos...*))
è uma coisa que não consigo controlar, não quero que se molhem na chuva, ou que brinquem sem roupas(só de roupas íntimas) no quintal, no verão...tenho medo e acabo não deixando!
Gostaria de ser uma mãe assim como esta do seu texto, mas não sou!
E tenho medo de que quando os filhos cheguem eu acabe fazendo tudo errado!*(
Não sei o que fazer para mudar isso!
Eu sempre fui criada muito presa,não aprendi a lidar com os nãos, não aprendi a lidar com muitas coisas... e sofri quando adulta...como faço para mudar??

Cora.

Minéia Pacheco disse... [Responder Comentário]

Olá Sofia,

Olha, tem um selinho para você em meu blog com algumas perguntinhas, fique a vontade para aceitar ou não!

Beijão para você!

Adriana Alencar disse... [Responder Comentário]

Muito bom! Parei várias vezes para refletir as suas palavras! Acho importante que o filho faça os seus próprios erros, mesmo que doa em nós... O meu mais velho se suja bastante, rasga roupas, rola no chão e eu não ligo, apenas coloco as roupas para lavar e dou banho antes de dormir... Acho que é assim mesmo, criança tem de ser corrigida, não mimada.
Algo que me chamou muito a atenção foi a afirmação de que não conseguiremos mudar as fraquezas de nossos filhos: você deu a entender que não devemos querê-los perfeitos, mas sim aceitar os seus defeitos e procurar as suas qualidades e talentos, exaltando-os! É uma maravilhosa lição para nós pais.
Tenha uma excelente semana!
Bj
Adri

Sofia disse... [Responder Comentário]

@Cora
Sabes Cora eu também era muito protectora, embora tenha sido uma criança com muita liberdade para explorar o mundo, para me sujar, para subir em árvores... A minha mãe é muito protectora com os netos e a minha irmã também. Mas reparei na minha falha quando vi a minha sobrinha mais velha crescer com medos de experimentar, com medo de usar as diversões do parque e desde essa altura me vinha a questionar na necessidade que temos em mudar esta atitude de demasiada protecção. Quando cheguei na Alemanha como já contei deparei-me com o resultado ao vivo de crianças que exploram o mundo, sujas e com arranhões, com coragem. Ainda me lembro das primeiras vezes que levei os pequenos que cuidava ao parque e como fiquei nervosa de os ver experimentar tudo sem medo, pois para eles era normal e eles conseguiam não se magoavam, divertiam-se, estavam assim habituados. Com o tempo e com o nascimento do meu Leo adoptei outra postura... protejo o Leo claro mas não em demasia se ele se suja, temos a máquina de lavar; se ele não consegue fazer algo, eu encorajo; se ele se magoa, eu aconchego... mas deixo que ele dê os seu passos com determinação, auto-estima. E sabes que já vejo nele grandes diferenças, ele experimenta sabe diferenciar o que é realmente perigoso e o que simplesmente é difícil.
Não tenha medo de errar, não somos perfeitas o importante é questionarmos e analisarmos as nossas atitudes... e o facto de leres sobre o assunto mesmo antes de ser mãe já é um sinal de que te preocupas. Pensa no assunto, tenta interioriza-lo em ti mesma, questiona-te. Porque tens medo?? porque não deixas?? Porque limitas os teus sobrinhos??
Comigo funcionou e interiorizei que protecção sim é necessária mas tem que ser controlada.
Sabes o que podias fazer? Tenta alargar o teu circulo protector com os teus sobrinhos: brinca com eles com coisas que te fazem confusão por achares perigoso (como por exemplo sujarem-se a brincar de fazer bolinhos de lama) pensa nisso, é um desafio para ti... mas talvez te ajude e aposto que os pequenos vão adorar.

Fernanda disse... [Responder Comentário]

Com certeza que o conceito da proteção também é cultural; por ex. nas férias de verão os nossos amigos alemães tentaram convencer-nos a inscrever o nosso filho, num intercâmbio, para melhorar o inglês dele, tal como fizeram com os filhos. Penso que um dia também o faremos mas não aos 9 anos!
Nós, os pais, levamos as crianças à escola, e aí não. Acho que nós, os latinos, somos mais protectores, o que não faz de nós necessariamente melhores pais.
Por outro lado, assumo a minha faceta mãe-galinha sem complexo, por considerar que isso me deixa muito mais tranquila, do que se não fosse, ou tentasse não ser. Prefiro ser mãe galinha, a mãe-relapsa!
No entanto, é como em tudo, protecção em dose q.b. é perfeito e penso que não castro as crianças ao adverti-las dos perigos e não permitir que façam determinadas coisas. Quanto a andarem descalços, podem e devem! No verão, claro! Andar à chuva? É melhor não, mas podem chapinhar em poças...de galochas, claro!

E penso, Sofia, que o equilibro está aí, entre o que podem e não podem, e entre o que nos deixa seguros e tranquilos.

Beijinhos

Cora disse... [Responder Comentário]

Sofia, acho que este exercício fará bem até para que eu possa melhorar de humor, sempre estou indisposta a realizar tarefas que as pessoas gostam, como andar na chuva!
Sempre penso que posso ficar doente, penso que meu cabelo vai estragar...enfim...sou uma chata de galochas nestes casos!!
Vou de fato fazer o que me recomendou!
Um beijo.

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